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Seminário debate impactos da relação entre escola, família e comunidade

14 de Setembro de 2016 • Fundação Itaú Social • 1 Comentários

30/08/2016
Por Thais Iervolino – Educação&Participação

Encontro realizado na sexta-feira (26), reuniu especialistas do Brasil e do exterior para refletir sobre avaliação de iniciativas que aproximam a família e a escola

“Qual é o papel da escola? A família faz ou não a diferença [na educação de crianças, adolescentes e jovens]?”, questionou Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, logo ao iniciar sua fala no 13º Seminário Internacional de Avaliação Econômica, realizado na última sexta-feira (26). A importância da relação entre família e escola foi uma das principais questões presentes no evento que, com a participação de outros 13 especialistas, buscou refletir sobre o impacto de políticas educacionais que contribuem com a aproximação entre escola e família.

De acordo com Ricardo, a relação entre família e escola é fundamental para a qualidade da educação. “À medida que as condições socioeconômicas da família melhoram, o desempenho escolar de crianças, adolescentes e jovens aumenta. Porém, há um problema: vivemos em um país onde a desigualdade social é enorme e isso se reflete na educação”, explica.

Os dados mostrados pelo especialista durante o encontro mostram que apenas 35% dos jovens cujas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social terminam o Ensino Médio, ao passo que 100% dos jovens de famílias com boas condições socioeconômicas completam a mesma modalidade educacional. “Por isso, o nosso desafio é pensar em políticas públicas que aproximem a escola das famílias, para eliminar o impacto trazido pela desigualdade”, afirma.

Para construir essa aproximação, alguns especialistas presentes no encontro apontaram a necessidade de superar o estranhamento entre a família e a escola. “Ao desenvolver políticas públicas para a educação, entendemos que era necessário ouvir a comunidade escolar. Por isso, fizemos uma pesquisa com pais e professores para saber a sua opinião e a expectativa sobre a educação na cidade. O resultado foi que a família culpava a escola e a escola culpava a família por problemas com a educação das crianças”, explica Venuzia Fernandes do Nascimento, secretária municipal de Educação de Santos (SP).

Segundo Priscila Cruz, do movimento Todos pela Educação, esse conflito é resultado da imagem que a sociedade faz da educação. “A análise que as famílias fazem da educação brasileira nada mais é do que o reflexo do descaso social com a educação. Infelizmente, a educação não é valorizada”, diz.

Palestrante Susan Sheridan no Seminário Internacional de Avaliação Econômica

Susan Sheridan: “Temos que aprender com a família, com o que ela tem a nos dizer em relação aos alunos”.

Na opinião de Susan Sheridan, da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, cabe à escola e aos educadores aproximar-se da família. “Ninguém fala a língua dos educadores, a não ser os próprios educadores. Por isso, temos que aprender com a família, com o que ela tem a nos dizer em relação aos alunos”, explica.

Para ela, a escola precisa trabalhar com os “3 As”: abordagem, atitude, atmosfera. “Temos que cuidar da atitude de todos os funcionários da escola, ver qual a abordagem e as ações estratégicas para criar um ambiente e uma atmosfera para que a família se aproxime da escola.”

Esse seria um caminho para consolidar o que ela chama de parceria família-escola. “É uma abordagem focada na criança, na qual família e profissionais da escola cooperam, coordenam entre si e colaboram para aumentar as oportunidades e o sucesso das crianças e dos adolescentes por meio de aspectos sociais, emocionais, comportamentais e acadêmicos”, diz.

Principais impactos da parceria família-escola

De acordo com Susan, a consolidação de uma articulação entre escola e família traz benefícios para alunos e professores.

Para os estudantes:

  • melhores habilidades, comportamento e desempenho acadêmicos;
  • melhores habilidades e comportamentos sociais;
  • menos comportamentos disruptivos;
  • finalizar a escola e sucesso acadêmico de longo prazo.

Para os professores:

  • melhor gestão da classe, habilidades instrutivas;
  • melhor relacionamento com estudantes e pais;
  • melhoria na habilidade de resolução de problemas;
  • melhor apoio para alunos com dificuldades.

Experiências

Durante o encontro, foram apresentadas algumas iniciativas que visam construir uma relação mais próxima entre a escola e a família. Uma delas é o programa Aprender em Família. Lançado em 2010, o programa é desenvolvido em 10 municípios chilenos, com um total de 28 mil estudantes, 18.500 famílias e 2 mil professores. Seu objetivo é, a partir da escola, potencializar o efeito da família sobre o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes construindo uma relação de colaboração entre os dois segmentos.“Queremos ampliar e desenvolver o vínculo entre a escola e a família para fortalecer o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens”, explica Teresa Izquierdo, da Fundación CAP, responsável pelo programa.

Palestrante Teresa Izquierdo no Seminário Internacional de Avaliação Econômica

Teresa Izquierdo: “A escola não está acostumada a trabalhar com a família e mudar isso implica em uma transformação cultural mais profunda”.

Segundo ela, para efetivar essa relação, é preciso promover uma mudança cultural. “Percebemos que a escola não está acostumada a trabalhar com a família e mudar isso implica em uma transformação cultural mais profunda”, afirma. Dessa forma, o programa é realizado em quatro etapas: inscrição da família como voluntária; recebimento de material e capacitação semestral para as oficinas; reuniões de monitores dos programas com as famílias e monitoramento mensal.

De acordo com o The Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-PAL), instituição responsável pela avaliação dos resultados, os estudantes que participaram do programa tiveram um índice de leitura 8% maior se comparado aos alunos de outras escolas do Ensino Fundamental I e um índice 2% maior na percepção do envolvimento dos pais com a educação entre os estudantes do Ensino Fundamental II. Em relação aos docentes, os resultados também foram avaliados como positivos. Nas escolas participantes do programa, os docentes apontam 9% a mais de colaboração de pais e responsáveis com a escola.

Em Santos (SP), o governo municipal também tem investido na aproximação da relação entre família e escola. “Sabemos que nossos estudantes não terão garantidos uma educação de qualidade e seu desenvolvimento integral sem a participação da família. Por isso, desde o início de nossa gestão tratamos de desenvolver algumas ações como: o fortalecimento dos conselhos escolares, com formação para pais ou responsáveis pelas crianças e que são participantes das 80 escolas municipais; encontros mensais de 4 horas, a construção de uma legislação municipal que repensasse os papeis da escola e o currículo escola, entre outras. A partir dessas ações, vimos que os olhares estão mudando”, conta.

Além desses especialistas citados, também estiveram presentes no encontro Fábio Barbosa, vice-presidente da Fundação Itaú Social; Raquel Teixeira, secretária estadual de Educação, Cultura e Esporte de Goiás; Francisco Gallego, diretor científico do J-Pal; Samuel Berlinski, diretor do Departamento de Pesquisa Econômica do Banco Interamericano de Desenvolvimento; Toni Niccolini e Naercio Menezes Filho, da Fundação Itaú Social; Tânia Rezende de Freitas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Ana Lucia D. Império Lima, da organização Conhecimento Social; Angela Dannemann, superintendente da Fundação Itaú Social.

Família e educação para além das escolas

Com 4’05” de duração, o vídeo A importância do trabalho com a família apresenta experiências concretas de organizações da sociedade civil (OSCs) que mostram não apenas a importância de envolver a família nas ações socioeducativas direcionadas a crianças, adolescentes e jovens, mas os ganhos que essa abordagem produz, além de contar com entrevistas de especialistas como Isa Guará, professora da Universidade Anhanguera de São Paulo (Unian), que coloca em perspectiva os conceitos de matricialidade sociofamiliar no contexto da assistência social. Veja o vídeo.

Confira a galeria de fotos:

Survey: Aproximação Família e EscolaBaixar arquivo

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12º Seminário discute desafios e perspectivas para avaliar programas de educação integral

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Comentários (1)

Nome Sobrenome Quimiranda saw13 de Outubro de 2017

são temáticas com importância singular para se debater em torno da educação ao nível das comunidades estudantis, pais e encarregados de educação que muitas vezes têm uma opinião relevante a quanto a conduta social dos membros das famílias. Bem haja.

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