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Indicadores Socioemocionais

Aula sobre Indicadores Socioemocionais ministrada por Daniel Santos.



Indicadores Socioemocionais - Parte 01

Primeira parte da aula sobre Indicadores Socioemocionais ministrada por Daniel Santos

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Transcrição

00:00 a 00:08 (Vinheta de abertura)

Imagem: Vinheta de abertura. Ilustração de um mapa múndi na cor azul clara ocupa toda a tela. A logomarca da Fundação Itaú Social aparece ao centro e alguns ícones na cor branca aparecem formando um círculo central ao redor da logomarca. A logomarca desaparece, dando lugar ao texto em azul escuro: “Curso Avançado de Avaliação de Políticas Públicas e Projetos Sociais”. Na sequência, os textos são substituídos por um retângulo grande azul escuro na parte central da tela. Dentro dele, está escrito: “Indicadores Socioemocionais, Professor Daniel Santos, 7 de Janeiro”. Abaixo do retângulo, também em azul escuro, o texto “Parte 1”.

Áudio: trilha moderna percussiva.

00:09 a 22:37 (Daniel Santos)

Imagem: Professor Daniel Santos, da Fundação Itaú Social, está à frente de uma sala de aula com um telão e lousa verde atrás dele. Ele está de pé e apresenta os conteúdos olhando para a turma.

Áudio Professor: O que eu preparei para vocês aqui hoje é uma mistura. No ano passado, essa aula foi essencialmente uma introdução a essa agenda muito mais em um estilo de seminário do que no estilo técnico. E a razão é porque essa agenda tem andamento e a técnica está sendo desenvolvida. Ao contrário de outros temas que vocês devem ter visto aqui, muito do que a gente precisa usar para fazer avaliação de impacto socioemocional ainda está sendo construído. Então, eu acho que a gente amadureceu nesse último ano. Existe um pouco mais de técnica para trazer aqui. Então, a aula de hoje vai ser um pouquinho mais balanceada entre uma introdução agenda e um pouquinho de técnica, mas vou pedir a compreensão e também a reflexão de vocês para entender que é uma agenda em construção. Então, para algumas coisas, eu vou colocar muito mais o que são as preocupações que a gente tem do que chegar, ao final da aula, com um cardápio de como usar esse monte de técnicas para fazer uma avaliação de impacto socioemocional. Nessa primeira parte, eu quero discutir com vocês como essa agenda se estabeleceu no resto do mundo e aqui, que não foi diferente. Eu acho que aqui, no Brasil, tem um ingrediente a mais! Essa agenda tem três grandes pilares, três grandes pedaços de evidência empírica, que vêm de muitas áreas diferentes do conhecimento e convergiram para trazer essa preocupação para o nosso lado. O primeiro pedaço, que tem inclusive um grande corpo de evidência recente, mostra que o sucesso futuro das pessoas não é só baseado em saber fazer coisas. Se a gente voltar à Teoria do Capital Humano, tal como Gary Becker propôs no início, e como ela foi desenvolvida em grande parte dos últimos 40 anos, existia uma história de que “capital humano é a quantidade de coisas que você sabe fazer, ou seja, quem sabe fazer mais coisas é mais recompensado pela vida”. Inicialmente, no mercado de trabalho, quem sabe fazer mais coisas tem mais produtividade, por isso ganha mais. E é isso que faz as pessoas terem mais sucesso que as outras. Saber fazer coisas é uma coisa cumulativa. Então, tem um paralelo com a acumulação de outros tipos de capital. E a maneira que se consegue investir em aprender a fazer coisas é estudar. Então, havia uma história bem contada de que ir para escola é um investimento em saber fazer coisas. E saber fazer coisas é o que faz diferença lá na frente! E isso é cumulativo. Consegue-se roubar, da Teoria de Investimento em Capital Físico, uma porção de ideias. E isso também tinha um grande paralelo com o que seria, durante uma certa fase do século 20, a teoria dominante em Psicologia de que existem fases do aprendizado e que esse aprendizado é cumulativo e bem descrito. Esse aprendizado seguia uma história, que era coerente com uma característica unidimensional e que explicava as diferenças entre as pessoas. Com o passar do tempo e especialmente nos anos 80, uma porção de pesquisadores começou a mostrar que outras coisas, além de saber fazer coisas, explicavam a diferença de sucesso entre os indivíduos. O Walter Mischel é um desses pesquisadores. Ele era um psicólogo que foi bastante influente no debate em Psicologia. Houve uma porção de idas e vindas. Os comportamentalistas desbancando a Teoria da Personalidade e, depois, as Teorias Sociocognitivas também se tornando mais presentes. O Walter Mischel era um empiricista. Muitas das coisas que ele fez desequilibraram a balança nas teorias psicológicas, por um lado e para o outro. Mas, ele teve uma contribuição que foi influente muito mais pelo charme da contribuição do que por ela ser super abrangente. Ele mostrou que nem tudo era saber fazer coisas. Walter Mischel foi o autor do Estudo do Marshmallow. Vocês já ouviram falar desse estudo? O Mischel, nos anos 60, era professor de Stanford. E ele propôs, para os alunos dele, a tentativa de construir uma medida da sua capacidade de postergar recompensa. E o grupo, juntamente com ele, bolou um exercício para ser feito com pré-escolares para tentar capturar a capacidade de postergar recompensa. A tarefa consistia em deixar uma criança de em torno de 5 anos de idade numa sala e na frente do doce, do marshmallow. Acho que, aqui no Brasil, essa brincadeira foi repetida com brigadeiros. Essa brincadeira foi repetida em vários lugares do mundo. E a criança ficava com um sininho do lado dela. E daí o pesquisador falava assim: ”eu vou sair da sala. E você tem várias opções. Você é livre para comer o doce quando você quiser. Você toca o sino e daí come o doce. Mas, se você esperar eu voltar para a sala e você não tiver comido o doce, eu te dou um segundo doce!”. Daí, ficava-se filmando a criança e a medida é o tempo que ela leva para comer o doce. Pouquíssimas crianças nessa faixa etária resistem aos 15 minutos, que é o tempo que o pesquisador leva para voltar para a sala. Esse estudo se tornou muito popular por várias razões, entre elas porque é divertidíssimo. E ele, Mischel, construiu essa medida. Claro, que era uma amostra enviesada de alunos de uma creche de Berkley, que eram frequentadas por filhos de professores e funcionários de Berkley e Stanford. Então, não é exatamente uma amostra representativa da população americana. Na metade dos anos 80, a filha dele conhecia algumas das crianças que tinham participado dessa brincadeira e começou a comentar: “pai, esse grupo de amigos estava nessa brincadeira. E eu tenho a impressão que aqueles que mais esperaram para comer o doce hoje são os que tão bem, deram-se bem na vida”. E Mischel resolveu levar a sério essa intuição da filha e começou a tentar encontrar mesmo as crianças que tinham participado do experimento original. E, de fato, essa medida era um alto creditor de sucesso futuro. As crianças, naquela ocasião, já eram jovens perto dos 30 anos, tinham salários mais altos, tinham se envolvido menos com tabagismo e alcoolismo... Havia uma série de indicadores favoráveis. Foi um estudo marcante, porque essa medida realmente não tinha nada a ver com saber fazer coisas, predizia resultados futuros e tinha todo esse charme de ser uma coisa inesperada envolvendo marshmallow. Então, uma série de coisas contribuiu para que esse estudo se tornasse muito popular entre os pesquisadores. Vieram outros. Esse aqui obviamente não é único, mas foi marcante, porque ele despertou o interesse. Foi mais ou menos nessa época em que James Heckman começou a estudar a sério a contribuição das características ditas não cognitivas da determinação do sucesso futuro e assim por diante. Então, esse é um pedaço de evidência importante. A magnitude de quando você tenta colocar, em um exercício de regressão, essas capacidades não cognitivas de predizer o resultado é parecida com as características cognitivas do saber fazer coisas. Então, não só é importante como parece ser tão importante quanto aquilo que a gente até então achava que era a única coisa que compõe o capital humano. O segundo pedaço de evidência vem de uma outra literatura, que mostra que uma parte dessa transformação é ontogênica e sociogênica. O que é isso? Biológica e social. Simplesmente por crescer, amadurecer e conviver com pessoas, as suas características não-cognitivas e socioemocionais se transformam. Mas uma parte é induzida por intervenção e, em particular, pela escola. A escola também é um vetor de transformação das capacidades não-cognitivas. E mais do que isso! Que seria o terceiro pedaço! Por que quem frequentou a escola por mais tempo tem mais sucesso na vida? O canal da transformação não-cognitiva parece explicar uma fração substancial, que também é da mesma ordem de magnitude das capacidades cognitivas. Ou seja, estudar é importante também porque transforma as capacidades não-cognitivas e esse canal é tão importante quanto o que você, de fato, aprende na escola. Isso tudo junto chama bastante atenção para o estudo do desenvolvimento não-cognitivo como uma possibilidade de intervenção e de transformação social. E hoje, está na moda, né? Nas capacidades do século 21, existe uma bela meia dúzia de grandes iniciativas globais tentando incorporar essas características e esse aprendizado no currículo escolar. Bom, agora vou contar para vocês alguns resultados marcantes de que características não-cognitivas são importantes para predizer sucesso futuro. A gente depois discutir profundamente o que significa os Big Five ou As Cinco Grandes Fatores da Personalidade. Isso é uma parte central da nossa conversa especialmente quando a gente tentar trazer essa discussão para o Brasil. Eu vou ter que falar rapidamente sobre o que são os Big Five e depois vou dizer como é que as pessoas chegaram nele. Por enquanto, a gente precisa saber que os Big Five são fruto de uma grande tentativa de descobrir quantos são os nossos grandes conjuntos de características psicológicas que definem a nossa personalidade. Vários estudos replicados em diversas culturas mostraram que o nosso conjunto de características de personalidade parece se agrupar em cinco grandes times. Os nomes ou apelidos que esses times ganham são: extroversão, que essencialmente é a capacidade de você envolver os outros na sua vida, nos seus problemas, nas suas preocupações, nas suas iniciativas; a amabilidade, que é a capacidade de você se envolver na vida dos outros, de se preocupar com os outros, de ter empatia, de querer ajudar os outros; a conscienciosidade, que é uma mistura da sua disciplina, da sua perseverança, da sua responsabilidade; o neuroticismo, que o contrário dele seria a estabilidade emocional. Dentro do neuroticismo está a depressão, a ansiedade, o retraimento; e, por fim, a abertura a novas experiências. Aqui na abertura a novas experiências teria a curiosidade, a imaginação, a criatividade imaginativa, o gosto pela estética, a tolerância à diversidade. Uma coisa que chama atenção é porque as pessoas chamam de neuroticismo e não de estabilidade emocional! É porque americano gosta de sigla. E essas cinco letrinhas aqui, se organizadas de uma maneira esperta, forma a palavra “ocean” ou oceano. Com estabilidade emocional não iria formar “ocean”! (risos). O que a gente vê neste gráfico é que, por exemplo, delinquência juvenil é altamente predizível por amabilidade, sua capacidade de desenvolver com os problemas dos outros, e por conscienciosidade, que é essa mistura de responsabilidade e de perseverança. Outra dimensão de sucesso futuro bastante diferente e que também é predizível por características psicológicas é mortalidade, a expectativa de vida, a longevidade. É bastante predizível por extroversão e por conscienciosidade. Note o seguinte: é mais predizível por conscienciosidade do que pelo QI (capacidade cognitiva) ou pelo status socioeconômico. Salário também é bastante predizível por características psicológicas. Tanto o salário quanto à duração do desemprego. Aqui é um estudo sueco marcante porque ele tem duas contribuições. Em primeiro lugar, ele mostra que as chamadas características não cognitivas são um preditor importante de salário. E eles são de magnitude próxima das capacidades cognitivas. E eles explicam um bocado também das equações de seleção, se a gente colocar no Modelo de Heckman, ou seja, a equação de seleção é estar empregado, é ter salário versus o salários ser missing. Eles explicam muito desse componente controlado por isso e eles têm o poder explicativo da mesma ordem de magnitude das características cognitivas. A duração de desemprego é predominantemente explicado por características não-cognitivas e não é explicado pelas cognitivas. Nesses dois primeiros exercícios, é a probabilidade de você sair do desemprego dado que você está desempregado. Aqui são exercícios de mínimos quadrados e aqui o modelo de duração em que você mede simplesmente determinantes da duração do desemprego. Por isso do sinal negativo. E aqui é positivo. É a chance de você sair do desemprego e aqui é a duração do desemprego. Então, são evidências recentes que mostram que as características não-cognitivas são importantes. Muitas vezes, quando a gente começa a trazer essa agenda para a política pública, uma preocupação que surge é quanto desvirtuar o papel da escola: “a escola é feita para ensinar conhecimento e não para modificar outras coisas. Então, não se pode trazer esse novo tempo senão vai competir”. E isso aqui mostra que, na verdade, não compete coisa nenhuma. Esses dois aprendizados são complementares. Aqui temos o resultado cognitivo. Aqui, GPA seria o “CR” e o SAT seria o ENEM. Esses são resultados nos Estados Unidos. Isso aqui é o resultado de uma meta-análise que mostra que, por exemplo, conscienciosidade é consistentemente um preditor tanto de GPA quanto de SAT, de notas. Então, desenvolver esse aprendizado não-cognitivo também estimula o aprendizado cognitivo. Parte dos resultados que ele prediz é o próprio aprendizado. O segundo pedaço de evidência, como eu tinha dito, é mostrar que a escola é capaz de transformar essas características ditas não-cognitivas. Isso aqui é uma meta-análise recente, do Durlak. E o que ele fez? Foi pegar diversas intervenções no mundo que tiveram uma avaliação rigorosa, randomizada ou quase experimental, e estudar o resultado que essas intervenções tiveram. E o que são intervenções voltadas para aprendizado socioemocional? Nos Estados Unidos, existe uma grande iniciativa que é o CASEL, Colaboração pelo Aprendizado Socioemocional. Ele tenta desenvolver intervenções voltadas para isso. Tenta abastecer as crianças com uma caixa de ferramentas que ajude a se controlar, a controlar a ansiedade, a ser mais assertivo na hora de dar a sua opinião em sala de aula, coisas do tipo. Então, é uma série de técnicas. Esse negócio é ensinado. E aqui, no gráfico, mostram-se os resultados que esses programas tiveram sobre aquilo que eles se dispunham a estimular, sobre as próprias competências emocionais. Existe um aprendizado aqui, em termos de ranking na escola. Provoca-se, nas escolas de tratamento, um aumento de posições no ranking emocional de 22 posições, numa escala de 0 a 100. Se em uma sala de aula houvesse 100 alunos, aquele que passou pelo aprendizado socioemocional ganha 22 posições. Esse tipo de programa também tem um impacto importante sobre o desempenho acadêmico, saúde mental, atitudes em sala de aula, problemas de conduta e outros comportamentos. Esse impacto é tão maior quanto mais a intervenção envolver os próprios professores da escola. Então, se envolver o pessoal da escola na intervenção e não for um grupo de fora que vem aqui e simplesmente ensina às crianças o aprendizado socioemocional, o impacto é maior ainda. Esse slide seguinte é o mais surpreendente. Imagine que eu acredite que a única função da escola é ensinar Português e Matemática. E daí eu comparo programas de aprendizado socioemocional com programas voltados para aprender Matemática e Português, onde o único foco da intervenção é cognitivo. O que esse gráfico mostra é que os problemas focados no aprendizado socioemocional estimulam mais o aprendizado cognitivo do que os próprios programas que têm como preocupação central o aprendizado cognitivo! E quando ele é aplicado pelo professor, é bem maior. Esse outro gráfico aqui é um dos estudos que fazem parte dessa meta-análise. É um do estudo do Heckman com Sergio Urzua e Jora Stixrud. Esse estudo foi randomizado e mostra que os jovens que passaram pelo programa tiveram uma melhora da autoestima e uma melhora em uma coisa chamada “lócus de controle”. Lócus de controle é uma medida psicológica que tenta mensurar quanto que uma pessoa acredita que o seu destino está nas suas mãos versus uma pessoa que acha que tudo que acontece com ela é fruto da vontade de Deus, da vontade dos outros. Então, a intervenção conseguiu modificar essas duas características aqui.

22:38 ao Fim (Cartela)

Imagem: Ilustração de um mapa múndi em tom azul claro ao fundo. E, em primeiro plano, duas imagens de capítulos posteriores a esta aula com o cabeçalho “Veja Também” em azul escuro. No rodapé, o texto: “Conheça mais em www.redeitausocialdeavaliacao.org.br”.

Áudio: Trilha moderna percussiva.