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Indicadores sociais na avaliação de iniciativas não governamentais

Encontro temático sobre Relação entre absenteísmo docente e desempenho escolar.



Parte 3: Indicadores sociais na avaliação de iniciativas não governamentais

A Fundação Itaú Social e o Instituto Fonte estabeleceram uma parceria com o objetivo de promover e fortalecer a Avaliação de Programas e Projetos Sociais no Brasil.

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Transcrição

00:00 a 00:20 (Vinheta de abertura)

Imagem: Vinheta de abertura. Sobre fundo branco, surge ao centro da tela a logomarca do Instituto Fonte. Essa logomarca se dissolve da tela, e aparece a logomarca da Fundação Itaú Social, também ao centro. A logomarca se dissolve e o fundo volta a ficar todo branco. Na sequência, aparece o seguinte texto escrito em texto, ao centro da tela: “A utilização de indicadores sociais na avaliação de iniciativas não governamentais. Ação Educativa, Junho de 2012”. Os textos se dissolvem e a tela fica toda branca novamente.

Áudio da Apresentadora: Eu vou convidar Maria Alice, Paulo Jannuzzi e o Maurício Érnica já para se sentarem aqui na mesa.

00:21 a 40:33 (Auditório)

Imagem: Pessoas da plateia fazem perguntas aos palestrantes. Apresentadora e palestrantes convidados estão no palco, durante o debate.

Áudio 1 Plateia: O meu nome é Cecília Roxo, eu sou consultora em avaliação. Eu estava interessada que o Paulo falasse um pouco sobre o IDH, que ele ficou de falar. (risos).

Áudio 2 Plateia: Eu me chamo Antônio Brito, sou professor da Universidade Mackenzie. A minha questão é para o Paulo, Maria Alice e Maurício. Quando a Maria Alice falou do nível micro, do território, eu fiquei pensando: “bom, é verdade. O âmbito de atuação do programa da Fundação Tide Setúbal é um território micro, de São Miguel Paulista. Mas, de uma certa maneira, devem existir outros micros dentro do espaço de São Miguel. E quando se pensa no Bolsa Família, a gente pensa nessa gestão macro. Mas, o sentido do Bolsa Família é micro, é no território. Senão, não estaríamos discutindo as políticas de desenvolvimento econômico local, por exemplo! Os impactos nesse sentido sobre o desenvolvimento. Então, como é que vocês veem e como estão tratando essa relação, cada um no seu local, com os indicadores, no caso do Bolsa Família? Quais são as ações locais que existem em um dado município? Por exemplo, a Tide Setúbal produz indicadores aí numa região com grande número de pessoas que têm o Bolsa Família. Como é que vocês dialogam no Bolsa Família com esses indicadores e com essas famílias que a Fundação está trabalhando? E vice versa. Nesse sentido, eu queria fazer aqui uma consideração. Todo mundo sabe que precisa de indicadores hoje para qualquer coisa, porque o mundo é uma medida. Ponto. Qualitativa e quantitativamente falando, a gente está sempre buscando medidas! Agora, o sentido desse “para quê” é que eu acho que a gente tinha que pensar um pouco, quando o Paulo fala em recorte da realidade a partir de um indicador bolinha ou quadradinho. A pergunta é: “eu recorto isso para quê?”. É para reduzir a desigualdade social? Eu recorto isso para trabalhar com redução de vulnerabilidade social? Quantos mapas de indicadores nós já tivemos na cidade de São Paulo? Atlas, Mapa da exclusão, Indicador de vulnerabilidade social... cada um trazendo retratos, mas objetivamente nós nunca discutimos o alcance político desses indicadores. E aí, nesse caso, é a minha expectativa inclusive neste seminário, quando se fala em indicadores de organizações não governamentais. Aí, humildemente, fica uma sugestão: se nós colocarmos aqui as instituições que trabalham com o investimento social privado, que pensam no retorno desse investimento, acho que a discussão de indicadores é outra. E eu acho que a riqueza seria se nós pudéssemos pensar exatamente na diversidade política dessas organizações não governamentais, que muitas vezes ficam encobertas para a gente poder pensar por onde estão passando esse debate sobre os indicadores. Estou falando isso enquanto uma consideração e não como uma pergunta. É um posicionamento mesmo. Obrigado.

Áudio 3 Plateia: Boa tarde! Meu nome é Cássia, sou trainee do Itaú e sou formada na área de gestão de políticas públicas. A minha pergunta seria com relação às organizações do terceiro setor. Pela cultura que a gente tem de avaliação, que é uma cultura bastante implícita no setor privado sobre feedback, o que vocês enxergam de potencial para a construção de novos indicadores? São instrumentos que a gente pode criar de novo, que podem ser a diferentes das organizações públicas? A gente tem como captar novos dados mais específicos das organizações e das comunidades com que nós trabalhamos? Como vocês enxergam esse horizonte para as organizações do terceiro setor?

Áudio Palestrante 2: Eu vou começar. Eu vou pegar um recorte aqui do que o Antônio falou sobre a relação micro e macro. E vou tentar responder também sobre avaliação nas instituições do terceiro setor, nas ONGs. Do ponto de vista da Fundação Tide Setúbal e do perfil de organização que nós somos, o que eu acho que as organizações não governamentais e as fundações podem trazer, e que eu acho que o Ministério não tem condições, é essa capilaridade. Como a Martina falou, a gente traz a vida como ela é. O que acontece, como é na ponta, quais são os embates que a gente tem... O próprio programa Ação Família era uma parceria com a prefeitura da cidade de São Paulo, ou seja, a prefeitura da cidade inteira. Então, a gente era micro do micro! Inclusive, os outros núcleos eram muito maiores. Então, a gente busca fazer esse diálogo com as políticas públicas. É difícil fazer com o Ministério, que está mais distante. Mas não é impossível, de jeito nenhum. No caso do Ação Família, a gente tinha um diálogo direto com a prefeitura. E essa capilaridade é algo que a organização não governamental pode ter e que uma prefeitura não tem. Então, a gente trazia na discussão como é que o agente social que visita a família podia ser trabalhado, o debate sobre o significado da visita familiar, que é um componente integrante do programa. A gente trazia todas as dificuldades e as potências dos programas que a gente via no nível micro. Então, existe uma contribuição muito grande no meu entender, no sentido de se trazer uma capilaridade maior e uma qualidade. Não porque é melhor, mas porque é micro. No caso, a gente tinha no começo do Ação família 300 famílias. Cada outro núcleo da prefeitura que tinha algo como 1000 famílias! Qual era a nossa pergunta então para o secretário? Era: “qual o objetivo de vocês? O que vocês querem? Quais são os limites?”. E daí a gente falava: “porque, com 1000 famílias, não dá para tirar esse objetivo que vocês estão querendo!”. Então, a gente estava mostrando, a partir da nossa experiência, como é possível. Então, esse diálogo que eu acho que é possível pelas organizações da sociedade civil. São nesses diálogos que se trazem os casos que vão construindo e reorientando também a política mais macro. E a última coisa é que, no nosso caso, foi a partir dessas experiências dos projetos, que a gente está ligado com as políticas públicas locais. Não só no caso do Ação Família, especificamente. Agora, nós não tem mais essa parceria, porque a prefeitura descontinuou esse programa. Mas, a partir dessa experiência, a gente continua atuando nos fóruns de violência doméstica, o fórum dos moradores do Jardim Lapena... Então, com essa experiência, nós vamos participando e temos uma atuação junto às políticas públicas nas demandas que estão na comunidade.

Áudio Palestrante 1: Eu vou aproveitar um pouco do tempo, porque eu não consegui fazer uma apresentação de algumas outras coisas que têm a ver com organizações sociais. O MDS tem, de fato, uma série de parcerias com entidades privadas, que vão prestar serviços socioassistenciais específicos para as prefeituras. Existem os equipamentos públicos, como os centros de referência da assistência social, os centros de referências especializados da assistência social e existem as entidades privadas, sobre as quais não existe a menor dúvida, dentro do Ministério e dentro do Sistema Único da Assistência Social, da sua importância como agentes fundamentais para garantir acesso aos serviços socioassistenciais. Então, essa é uma das motivações pelas quais eu vim aqui. Ontem foi a divulgação do Plano Brasil Sem Miséria. Normalmente, eu deveria ficar lá. Eu não estou dizendo isso só para colocar para vocês um problema não! É que eu achei que era importante vir aqui exatamente porque esse diálogo com as instituições não governamentais, no campo de monitoramento e avaliação, é muito importante para o Ministério. Seja uma organização de pequeno porte, que atende um projeto social muito específico, ou seja uma outra organização mais ampla. Se vocês estão cada vez mais interessados para além da prestação de serviços, estão se qualificando, estão tentando mostrar resultados e sobretudo terem práticas de reavaliação do que está dando certo e do que está dando errado para aprimorar, isso a gente tem o maior interesse em contribuir. Por quê? Porque eu acho que existe uma clareza no Ministério, talvez não tanto quanto a gente gostaria nas outras pastas, de que a capacidade do estado brasileiro, em termos das suas burocracias técnicas de todo esse conjunto de programas que a gente efetivamente tem, ela está absolutamente no limite. Está muito difícil a gente conseguir continuar expandindo e fazendo um serviço de melhor qualidade. Eu até esqueci de falar isso na minha exposição inicial. A gente está passando por um período muito complicado de culpabilização do funcionário público e também das organizações não governamentais. É péssimo esse momento da sociedade brasileira. E eu acho que um dos caminhos é exatamente mostrar que a gente faz avaliação para mostrar os resultados, mas também para aprimorar. É isso que a gente está querendo. É tentar mostrar através dessas experiências. E daí, a importância da revista ser um canal de disseminação dessas práticas. É importante de trocar essas experiências. E, para nós, enquanto Secretaria de Avaliação, estamos tentando fomentar a estruturação de unidades de monitoramento e avaliação nos estados, para que, de alguma forma, a gente consiga reunir conhecimento específico sobre boas práticas que estão ocorrendo no campo da assistência, no campo dos programas de desenvolvimento e assistência social e segurança alimentar por todo o Brasil. Nós temos alguns prêmios, mas a gente sabe que não necessariamente que haja gente para inscrever as boas práticas executadas em algumas organizações ou municípios. Muitas vezes, existem projetos muito positivos, mas com um pessoal tão comprometido que não tem tempo para isso. Então, o que a gente está querendo é fomentar essa cultura. Nós devemos estar lançando um grande programa de capacitação de gestores estaduais e de municípios de capitais da assistência social. Não é um curso que vai estar aberto, é um material que a gente espera que as instituições universitárias, ao oferecerem esse curso, elas vão ter plena liberdade de usar o material. A gente está desenvolvendo um material nesse sentido. Estamos até em conversações com o Itaú Social, com o Projeto Brasil Hoje, para aprender exatamente com eles a partir de experiências semelhantes, para a gente difundir essa cultura. Isso é uma parte importante no caso do Brasil Sem Miséria, sobretudo se a gente pensar a inclusão produtiva urbana, uma vez que a rural já esteja bem mais equacionada. Até porque, na rural, os números são muito menores, dado o fato de a inclusão produtiva rural ter um público muito mais específico. É o agricultor familiar. Então existe um desenho mais bem elaborado, porque existe um público também mais específico e sobre o qual a gente já tem alguma experiência de PRONAF, de PEA e de outros programas que encontram boas soluções. A grande dificuldade do Brasil Sem Miséria é a inclusão produtiva urbana, que não seja apenas a replicação de programas de qualificação profissional mais ajustados às características do nosso público, que tem déficits básicos de escolaridade. Portanto, o curso, seja ele oferecido por instituições muito sérias como SENAI, SESC, SENAC ou institutos federais, ele precisa ser adaptado para o nosso público. Mas, existe toda uma outra parte da inclusão produtiva, que tem a ver com o cooperativismo, com economia popular solidária, com o microcrédito, com arranjos de produtivos locais, e que dependem muito da capacidade do município, de suas instituições e de suas organizações sociais de conseguirem desenvolver projetos específicos, mas que sejam de fato ajustados para esses públicos. Talvez não existam muitas possibilidades de se fazer um desenho de um programa de inclusão produtiva, como se fosse um LEGO, em que você consiga encaixar essas pecinhas lá por Brasília. A gente vai ter que empoderar os municípios. Eu acho que os municípios concretamente não têm condições de fazer isso dentro da burocracia municipal. Eles não têm tempo, mas eles podem contar com instituições não governamentais para fazer boas experiências de inclusão produtiva. E, de fato, nesse momento vai ser 300 pessoas aqui, 300 ali, 400 lá. Mas enfim, considerando esse universo de 13 milhões de famílias, que são beneficiárias do Bolsa Família. Se a gente pensar em um horizonte, a gente consegue erradicar todo mundo da pobreza. Esses outros 2 milhões de famílias que está faltando a gente trazer para fora da extrema pobreza. Então, vamos ter aí provavelmente 14 milhões e meio de famílias no programa. Agora, a reinclusão social, ou seja, a saída dela do Bolsa e a inclusão na estrutura produtiva, que é o objetivo de uma grande maioria dessas famílias, que realmente têm aspirações de conseguir um emprego formal com carteira e de participar do mercado de consumo, isso é um sonho. As pessoas não querem ser beneficiárias a vida toda. Mas, para elas conseguirem sair dessa condição, a gente vai ter que reinventar. Não é só o governo. É a sociedade brasileira. A gente tem que encontrar como transformar as oportunidades que existem em possibilidades mesmo de inserção produtiva dessas pessoas. E aí, é aquela questão. É muito difícil que a gente tenha a possibilidade de fazer um grande programa que seja replicável de Brasília para todos os estados. A gente vai ter que aprender, como foi no caso do Bolsa Família. O Bolsa Família não foi imaginado lá em cima. Foram boas experiências municipais replicadas depois lá. Os programas de assistência social foram exatamente isso. São boas experiências que foram desenvolvidas em municípios e que depois foram agregadas, padronizadas e oferecidas para um conjunto maior. Então, a gente está precisando de fato de boas experiências nesse sentido. Infelizmente, nós não conseguimos tocar em frente um esforço que eu queria mostrar para vocês, se for possível. Eu acho que é importante mostrar para vocês que existe um esforço de tentativa de mapeamento de boas práticas no campo dos projetos sociais, que se chama “Mapa de Oportunidades e Serviços Públicos”. Nesse site da SAGI, que vocês estão vendo aí, existe uma série de produtos. A ideia desse mapa de oportunidades e serviços públicos é que a gente tenha a possibilidade de reunir as oportunidades que são as melhores práticas em tecnologias sociais. Nós não tivemos fôlego para compilar tantas experiências quanto gostaríamos. Mas, é exatamente isso. A gente pegou, a partir dos nossos bancos de prêmios, quais eram aquelas boas experiências de inclusão produtiva interessantes para disseminar para outros municípios. Quem sabe, se espelhando naquilo, esses municípios fariam alguma coisa diferente. Na inclusão produtiva, é isso que a gente vai ter que fazer. Os municípios com as suas organizações sociais replicando experiências pelo Brasil afora. Estamos infelizmente tocando outros projetos nesse sentido. Dentro desse site, existem pesquisas e publicações. A gente tem a Revista Brasileira de Monitoramento. O segundo o número já está no ar. Tem também uma biblioteca digital com os artigos na área de desenvolvimento social e as pesquisas de avaliação. Essas pesquisas de avaliação que eu queria mostrar para vocês. É só para dizer para vocês que a gente tem uma ferramenta na internet que se chama Identificação de Domicílios Vulneráveis, onde a gente faz o diálogo entre o macro e o micro. Nós colocamos, para todos os municípios brasileiros, as informações em nível de setor censitário de tal forma que o gestor local possa conhecer o seu município e identificar onde estão os bolsões de pobreza. Então, você clicando em determinado setor censitário, por exemplo, que é um conjunto de quarteirões, tem 206 domicílios e uma série de outras informações. De tal forma, você consegue integrar informações da população e informações de serviços. Por exemplo, essa sigla “EP” significa entidades privadas. Eu vou clicar em cima de uma deles e eu vou ter informação que entidade privada é essa. Então, essa entidade privada da assistência fica na Rua da Universidade, no bairro Benfica, lá em Fortaleza. Ela presta serviços de abrigo 24 horas por dia para a população. Então, é uma ferramenta que está na internet e a gente quer que vocês usem. A ideia é exatamente, com base nessa ferramenta, o gestor pode conhecer os equipamentos do entorno do seu domicílio e o técnico da assistência social também consiga fazer o referenciamento às escolas, aos SENAIs, aos cursos de qualificação. A gente quer chegar lá. Por enquanto, temos apenas as entidades privadas. Hospitais ainda não conseguimos. Mas, escolas vamos conseguir esse ano, porque o MEC está fazendo o Censo Escolar e está pedindo uma localização mais detalhada para a gente conseguir botar o dado. Mas, já temos os postos do SINE, o Sistema Nacional de Emprego, que faz a intermediação de mão de obra. E temos uma série de outras pesquisas. Eu queria chamar a atenção de vocês que são analistas, porque existe o censo SUAS, que é o censo do Sistema Único da Assistência Social e que tem um questionário específico de entidades privadas. Para o censo SUAS, realizado no final do ano passado, nós já disponibilizamos uma ferramenta de cruzamento de dados para vocês poderem fazer cruzamentos. Para quem já usou tabuladores do Data Sus sabe o que eu estou falando. É por uma variável na linha e uma outra variável na coluna. Mas, nós ainda disponibilizamos o censo SUAS de entidades privadas. Mas, estão aqui os censos dos equipamentos dos CRAS, dos CREAS, do Conselho Municipal, do Conselho Estadual. Vocês podem fazer cruzamentos e entender o que está se passando nessas diversas instituições. Enfim, era basicamente isso. E por fim, eu queria falar um pouco do Data Social, que está dividido em vários subsistemas. Então, a gente vai buscar informações no IBGE, no Ministério do Trabalho, no Ministério da Saúde, tudo para reunir aqui um portal de informações para quem atua na área da assistência social. Então, vocês têm inclusive aqui o indicador municipal sobre a condicionalidade do Bolsa Família. Então, nós temos aqui um indicador que é o total de crianças e adolescentes público da educação e o número de crianças e adolescentes não localizados no acompanhamento da frequência escolar. São dados absolutamente novos e que são dados de acompanhamento do público do Bolsa Família. Esses dados estão sendo disponibilizados e podem servir até para dimensionamento de públicos de projetos sobre os quais você estão eventualmente atuando. Peço desculpas se eu não respondi questões mais gerais. E sobre o IDH, o que eu queria dizer que existe uma discussão já de algum tempo no Brasil. Já havia alguma discussão sobre IDH do ponto de vista metodológico, que é o grande problema dos indicadores sintéticos. Um indicador já é uma redução da realidade de uma forma muito objetivada. O indicador sintético, como o IDH, é uma composição de fotografias. Esse é o problema. Se uma foto já reduz a realidade, imagina você tirar várias fotos e tentar encapsulá-la em uma fotografia só! Ele dificulta, muitas vezes, a interpretação que a gente tem. Portanto, eu sempre faço um advocacy pelo uso de um conjunto de indicadores e não por um indicador sintético, ainda que eu reconheça que existem indicadores sintéticos muito interessantes. O ideb, por exemplo, é um bom exemplo de um indicador, até porque ele só tem dois componentes. Porque, quanto mais componentes se coloca em um indicador, mais complicado fica entender o que ele está medindo. Mas, o ideb é um bom exemplo. Então, eu não sou absolutamente contra essas propostas de indicadores sintéticos. No caso do IDH, existe uma percepção de que ele vem evoluindo da mesma forma no Brasil há 30 anos. E, no entanto, em 30 anos, nós saímos de um patamar de 13 por cento de gasto do PIB para 25 por cento de gasto do PIB. A gente passou de um ou dois ou três programas universais para um conjunto de 200 e tantas ações e programas governamentais na área social. Então, o IDH não capta todo esse movimento importante da sociedade brasileira, que não é só de um governo mas de um conjunto de governos que vêm se sucedendo desde 1988 para cá. Particularmente, a gente tem que reconhecer o esforço do governo Lula de colocar a pauta da agenda social. Mas, enfim, o IDH é absolutamente linear no tempo. Então, existe um esforço do governo brasileiro de começar a pautar a agenda internacional de que é preciso reformular o IDH. Não necessariamente propor um outro indicador sintético, mas talvez reanimar a discussão como os indicadores dos objetivos do milênio fizeram. Talvez, a agenda dos ODM, dos objetivos do milênio, seja muito melhor, muito mais complexa do que a agenda do IDH. Aquele ciclo que eu mostrei para vocês é um ciclo de vida de um programa, mas também é o ciclo de vida de uma instituição. Determinadas questões suscitam o surgimento de uma organização e essa organização vai passando pelo seu ciclo de vida. Às vezes, ela cumpriu a sua missão e não tem razão para sua existência. Mas, ela resiste bravamente. Então, o IDH vem nesses últimos 20 anos produzindo um novo IDH cada vez mais complexo. Se vocês tentarem entender como o idh é calculado hoje, vocês vão precisar de um especialista e não é qualquer especialista. É um econometrista que vai decifrar como o idh é calculado hoje. Muito diferente do que a proposta inicial. Então, o instituto que constrói o idh, lá dentro do PNUD, tem uma lógica de auto referência, ficando cada vez mais distantes efetivamente das necessidades para as quais o indicador foi construído. Então, existe um embate técnico, científico e político, neste sentido. Porque, desenvolvimento humano não é só desenvolvimento de capacidades em educação e acesso a serviços de saúde. É muito mais do que isso. Então, a gênese teórica, metodológica, ideológica e política do idh está muito ancorada em pressupostos da economia liberal, com todo respeito ao Amartya Sen. Mas, de fato, são essas dimensões do capital humano que ele avalia. Enfim, se há alguma coisa de muito positivo para o Brasil mostrar para outros países é mostrar que a política social deveria envolver um conjunto muito mais amplo de questões. E, se quer avaliar o bem-estar, portanto o idh deveria ser muito mais amplo do que efetivamente do que ele é composto hoje. Do ponto de vista metodológico, caso vocês queiram saber um pouco mais sobre idh, eu sugiro que procurem no Google por um texto meu que eu publiquei na Revista de Administração Pública, em 2002. Depois, existe um outro na Revista Bahia e Análise de Dados, de cinco anos atrás, que fala um pouco sobre os limites e potencialidades do idh que se aplicam a qualquer outro indicador. Obrigado!

Áudio Palestrante 3: Eu queria falar rapidinho. Vou começar da segunda pergunta para a primeira. A segunda era sobre os indicadores, o que eles podem dizer. Parece para mim que uma das coisas que se discutiu hoje aqui os indicadores são extremamente importantes e que produzem uma informação. Mas, essa informação vai fazer sentido de fato a partir de algumas perguntas. Então, antes do trabalho com o indicador, o que nos parece central é a construção das perguntas, do que se quer saber. Afinal de contas, qual é a questão sobre a qual nós estamos atuando e qual é a pergunta que a gente tem a fazer a partir dessa pergunta? Só a partir daí é que a discussão sobre a construção do indicador passou a fazer parte da nossa agenda de trabalho. Então, eu acho que antes da pergunta sobre o indicador em si, a pergunta para as instituições sociais é sobre quais as questões que a gente constrói que nos leva à necessidade do trabalho com os indicadores. Aí, a informação tem sentido para ação e tem sentido para os outros. Sobre a questão do macro e do micro, o que a gente apresentou aqui é um trabalho de construção de monitoramento da ação da Fundação. Então, a gente está bastante ancorado na nossa ação e dormindo extremamente em paz com a dimensão que o nosso trabalho tem. O que nos serviria trabalhar com variáveis das famílias, como renda per capita, desemprego e escolaridade do chefe da família? São problemas extremamente relevantes, mas que sobretudo devem ser objeto de políticas públicas. Então, a gente descolaria a construção da caracterização do problema do tamanho da nossa mão. E sobre isso, só queria também salientar que uma parte da nossa ação tem por objetivo expandir a presença do poder público no território. Por exemplo, com uma creche ou uma EMEI. Isso gera uma transformação no território muito maior do que a ação da Fundação diretamente sobre as famílias. E aí sim, essas outras variáveis que a gente não pode atender na atuação direta com as famílias podem ser transformadas. Então, o primeiro ponto é esse. É calibrar o indicador com a ação pela qual ele está referido e procurando usar a distinção que o Jannuzzi colocou num primeiro momento da monitoração e da avaliação. O diálogo com o macro, no nosso caso, a gente pretende estabelecê-lo usando a nossa experiência naquele território. Daí, para ajudar a gente a construir uma compreensão dos problemas sociais nas periferias urbanas e no tipo de transformação, que é possível ou que é muito difícil de ser realizada sobre esses problemas. O problema da inserção produtiva, da geração de trabalho e renda, por exemplo, são um tremendo de um problema. E enfim, espero ter sido claro no meu esforço de síntese, sobretudo no final. A distinção entre o que a gente pode usar como produção para monitoramento. É viver um super impasse com o fato de ser simples, porém significativo e com a sensibilidade suficiente para orientar a direção da ação e depois para dizer se essa ação gerou as transformações pretendidas. Bom, era isso.

Áudio Apresentadora: Na verdade, um passarinho me contou que não dá mais mesmo tempo de fazer mais e mais perguntas. Eu estou agoniada, porque eu ficaria muito tempo aqui. Eu tinha várias perguntas para fazer para vocês. Mas, enfim. Acho que é isso. De novo, eu quero agradecer muito cada um de vocês. É um interesse da parceria com a Fundação de a gente explorar esses diálogos da avaliação no setor público privado e público, do setor social das ONGs e do poder público, porque, no final das contas, a gente está olhando para o mesmo lugar. E a avaliação e os indicadores podem ser um campo de diálogo disso. Enfim, a gente espera aproveitar essas oportunidades para gerar mais conversas sobre isso. Muito obrigada. Acho que a Fundação Tide Setúbal tem feito um trabalho bem bacana com relação a isso também, um esforço muito bonito de fazer esse diálogo mesmo e de se responsabilizar por olhar mesmo por um território, fazendo um vinculo com as políticas públicas. Muito obrigada por virem aqui compartilhar! Foi muito bacana. Muito obrigada a cada um de vocês também da plateia. Espero que a gente se encontre em outros eventos e em outros espaços que a gente construa. Obrigada, gente! (aplausos).

40:34 ao Fim (Vinheta de fechamento)

Imagem: Vinheta de fechamento. Sobre fundo branco, surge ao centro da tela a logomarca do Instituto Fonte. Essa logomarca se dissolve da tela, e aparece a logomarca da Fundação Itaú Social, também ao centro. A logomarca se dissolve e o fundo volta a ficar todo branco. Na sequência, aparece o seguinte texto escrito em texto, ao centro da tela: “A utilização de indicadores sociais na avaliação de iniciativas não governamentais. Ação Educativa, Junho de 2012”. Os textos se dissolvem e a tela fica toda branca novamente.